13.1.09

Comida de Tripulante

Você comeria??

Comida Peruana

Mix de delícias peruanas: muito camarão, marisco, lula, vieiras gigantes na concha, milho branco de grãos enormes e coentro na medida certa!



Milho frito: típico e divino, melhor que pipoca!! Pra acompanhar a ótima cerveja então...

Miraflores, Peru


Presépio sem preconceito: Jesus de bumbum de fora e Sagrada Família Afro-descendente!



Panama Canal



Natal

Meu natal foi um lixo. Ou melhor, nem tive natal. Teve uma festa para a tripulação (tudo pago por nós, nada, nem uma rena de chocolate dada pela companhia). A única coisa que eles ofereceram foi o DJ e a banda (lógico que foi a banda brasileira,BR Connection, porque era a melhor!). Eu queria muito ter ficado pra vê-los tocar mas estava exausta, com febre e dores nos pés.
Desde que cheguei foi a terceira vez que fui ao hospital do navio. A primeira logo no segundo ou terceiro dia por causa de uma diarréia que somos obrigados a reportar devido ao pânico que eles têm de que um vírus se espalhe pelo barco. Fizeram exame de sangue, me deram uma injeção e me confinaram na cabine até o dia seguinte.
Uma semana depois fui novamente, desta vez por causa dos meus pés. O inchaço era assustador mas o que mais incomodava eram as dores fortíssimas, como picadas de vespa, que ferroa e queima ao mesmo tempo, principalmente na hora de dormir. A dor é tanta que levo mais de duas horas do meu precioso tempo de descanso pra pegar no sono.
A vaca da médica nem pôs as mãos nos meus pés (estavam limpinhos, juro!) e diagnosticou que era “apenas” retenção de líquidos. Me deu diuréticos e mandou que dormisse com os pés para cima. É claro que ela nunca entrou numa cabine de crew, senão saberia que “pés para cima” na cama de cima do beliche é uma posição que desafia as Leis da Física.
Como não houve melhora nenhuma, o que houve foi o acréscimo da febre à tudo isso e o comprometimento da qualidade do meu trabalho devido às dores e à falta de sono, resolvi voltar no dia 24. Coletei urina e o resultado saiu em tempo recorde: menos de 2 minutos. De fazer inveja à NASA. Ela disse que eu tinha uma infecção urinária e receitou Bactrin. Milagrosamente meus pés amanheceram menos inchados, mas a dor, como no clichê da propaganda brasileira, continua a mesma...

Boat Drills

Os drills também matam o tempo do trabalho mas são muito chatos. São simulados de situações de emergência, tipo “abandonar o navio”. Até nisso a tripulação se fode. Não usamos barcos e sim botes infláveis e tanto a ração de água como a de comida contida neles é bem menor do que nos barcos de passageiros.
A primeira coisa que recebi quando cheguei (aliás, bem antes da chave da minha cabine que só chegou umas 4 horas depois...) foi meu cartão de segurança e fui orientada a mantê-lo comigo “ALL THE TIME” (com ênfase).
É um cartão que contém instruções específicas sobre onde ir e como agir em cada tipo de emergência. Por exemplo, a minha estação de emergência fica no Deck 5, Fire Zone 6. Meu bote salva-vidas é o 6/3. E eu faço parte da brigada Delta, esquadrão Search (busca). Traduzindo: procurar bombas ou pacotes e malas suspeitos em caso de ameaça terrorista.
Os códigos são assim: se o capitão fala da ponte BRAVO BRAVO BRAVO e indica o local (por exemplo, deck 5, forward, portside) é porque há um incêndio nesse local. Quem tem o código BRAVO no seu cartão de segurança deve se dirigir para o local indicado. Se o código BRAVO BRAVO BRAVO é dito sem a indicação de local é porque alguém acidentou-se.
O código STAR STAR STAR significa “homem ao mar” e o DELTA DELTA DELTA, ameaça terrorista.
Sete apitos curtos seguidos de um longo quer dizer que TODOS devem seguir imediatamente para suas estações de emergência. Devem vestir seus coletes salva-vidas casa estejam em suas cabines na hora que ouvirem o sinal.
Um apito longo seguido da voz do capitão dizendo “abandon ship” significa: FODEU. Salve-se quem puder.

Fire Fighting / CPR

Como sou novata por aqui, tenho muitos treinamentos. Por mais tediosos que sejam eu adoro. Afinal são pelo menos 60 minutos sentada, descansando os pés que parecem ter adquirido elefantíase de tão inchados e que doem absurdamente. Mas essa é outra história. Voltemos aos treinamentos.
São vários os temas, como títulos que me fazem lembrar meu tempos de producer do IIR: “Como Agir em Caso de Assédio Sexual”, “Lidando com a Diversidade Cultural”, “Controlando Multidões em Situações de Crise” (devia ser ministrado pela PM paulista, treinada em conter corinthianos revoltados), Treinamento Anti-Terrorismo (ministrado pelo gatíssimo israelense Levy, Security Officer), etc.
O fato é que hoje ostento um certificado de primeiros socorros, combate a incêndios e controle de crise. Não que eu possua nenhuma dessas qualificações. Afinal o que se pode aprender sobre primeiros socorros assistindo à uma apresentação de Power Point por uma hora? Quase nada. Mas a lei americana exige que todos os tripulantes possuam esses certificados. O correto seria fazer um curso em terra numa entidade competente, mas uma palestra de uma hora com apoio da tecnologia de ponta do PP custa bem menos. E o que realmente interessa para a companhia é a grana entrando nos cofres.
Deus nos livre o Infinity se transforme num Titanic. Eu tiro meu crachá na hora e me finjo de passageira!!!

A porta assassina

Quando eu era pequena minha mãe, como todas as mães, me alertava sobre os perigos da vida. Coisas normais como não por o dedo na tomada senão toma choque e outras mais aterrorizantes como não por a cabeça pra fora do carro porque pode passar um caminhão e decepá-la.
Alguns alertas, seja por muita ênfase da minha mãe ou por paranóia minha, ficaram. Eu diria que um dos grandes pânicos da minha vida é panela de pressão. Minha mãe sempre disse pra não chegar nem perto porque elas podem explodir e que o conteúdo borbulhante queimaria mãos, rosto e sabe Deus mais o quê. Com medo de ficar com a cara parecendo boneco de cera de filme de terror, simplesmente aboli essa tecnologia da minha cozinha. É claro que para os outros eu digo que não uso em nome do purismo, já que francês que se preza jamais usaria uma panela de pressão para acelerar o cozimento do velho e duro galo para o coq au vin.
Bem, tudo isso pra dizer que adquiri uma nova fobia: as WATERTIGHT DOORS. São portas corta-água, pesadíssimas, acionadas manualmente ou pela ponte de comando. Em hipótese alguma se deve tentar passar por elas enquanto estão sendo abertas ou fechadas. E para que isso fique bem claro na mente das pessoas, eles passam um vídeo mostrando a porta se fechando contra um osso de perna bovina. O corte é mais rápido e preciso que o das serras usadas em açougues (tenho horror delas também).
Como se isso não bastasse para amedrontar, o capitão grego que ministra os treinamentos de segurança (Safety Officer diferente do Security Officer, que cuida da segurança em termos “policiais) aterroriza mais um pouco: conta que muitos já perderam braços e pernas mas que o pior aconteceu há dois anos quando um tripulante foi literalmente partido ao meio, no melhor estilo Jogos Mortais.
Abaixo a foto da ceifadora. Acima a descrição de como criar uma fobia com sucesso.

Por que todo passageiro quando faz as malas esquece o cérebro em casa?

Desde a época que eu era guia de turismo da Dimensão essa questão me intriga. Perguntas como “Como se diz hambúrguer em inglês” eram normais e ficou famoso o caso da senhora que convidada a fazer o check-in indignou-se dizendo que não ia fazer “chequinho” nenhum pois já havia pago tudo à vista.
Será que as pessoas ao saírem de férias dão férias também aos neurônios? Abaixo alguns clássicos de bordo relatados pelos meus colegas.
·         Vocês moram no navio? As respostas variam, como dizer que moramos em pequenos barcos amarrados ao navio que são baixados à noite e recolhidos pela manhã. Uma resposta acabou gerando uma reclamação por parte do passageiro: o garçom croata quando questionado sobre nossa moradia respondeu que vínhamos todos os dias de helicóptero, às 4h30 da manhã. O passageiro reclamou porque ficou esperando pelo helicóptero...
·         Como é gerada a energia do navio e com que combustível são alimentados os motores? A resposta majoritária é de que temos um cabo de força que liga o navio até o porto de Fort Lauderdale.
·         Onde são criadas as galinhas que comemos? Resposta: ao lado do curral, deck 2. Se perguntam sobre o leite fresco, a resposta é: ordenhamos as vacas diariamente no curral que fica ao lado do galinheiro, deck 2.
·         Pergunta sem resposta: O que vocês fazem com as esculturas de gelo depois que elas derretem?

Aurélio de Bordo

Aqui vai um pequeno dicionário de sobrevivência a bordo.
·         Kaput – Quebrado, estragado, sem conserto, fudido. Ex.: O forno quebrou – The oven kaput / O presunto está estragado – The ham kaput / Meus pés estão fudidos – My feet kaput *Note que com o uso da expressão kaput suprime-se o verbo.
·         Banana – Problema, bronca, esporro. Ex.: Se não usar luvas você vai ter problemas – If you don’t wear gloves banana for you / Não faça a limpeza e talvez leve um esporro – Do the cleaning or maybe banana.
·         Taka Taka – Falação, Blá blá blá, encheção. Ex.: Trabalhar no serviço de quarto é bom porque não tem chefe enchendo o saco – The Bell Box is good because no taka taka / Na cozinha principal tem muita falação – Main galley is too much taka taka.
·         Jiggy Jiggy – Sexo
·         Mamagayo – Ócio, preguiça, tempo livre. Ex.: Vou para a cabine no meu tempo livre para transar com meu namorado – I go cabina mamagayo time to jiggy jiggy my boyfriend.
·         Paisano – Compatriota
·         Trosso(a) – Estúpido, idiota, sem noção. Ex.: Sempre que alguém faz uma pergunta idiota recebe uma resposta irônica acompanhada do chamamento “trosso”.
Aguardo contribuições dos meus colegas de confinamento...

Los Hermanos

Se existe um lugar no mundo onde brasileiros e argentinos sentam na mesma mesa e não discutem futebol, esse lugar é aqui. O engraçado é que andamos sempre juntos e existe uma cumplicidade difícil de imaginar mas fácil de explicar já que temos tantas paixões em comum.
Quem diria, los hermanos mais hermanos do que nunca!